quinta-feira, 22 de maio de 2014

Mar!
De longe tua voz eu ouço
O fragor das tuas vagas
Fico mesm' até mais moço
Quando tu, com d'água bagas
M' encharcas 'té ao pescoço!
Ah, Mar, Mar!...
Fui-me de perto de ti,
E minha Alma só chora!
Nunca, nunca mais eu te vi,
Oh, porque me vim embora?
Ah, Mar, Mar, Mar!...
--
Ah, Mar, Mar!
Eu ficar, já não podia
Se pudesse, ai, eu ficava!
Contigo, me divertia
Quand' em teu seio eu nadava!
Ah, Mar, Mar!
--
E tu, Lisboa maldita,
Que me matas lentamente,
E me tiras mesm' a dita
De uma vida decente!
Maldita, maldita, maldita!
--
Que, Lisboa, sobre ti,
Caia outra maldição,
A que eu t' envio daqui,
Esperando não ser em vão!
--
Oh Terra, del' inocente,
Vem e abre-te, sob ela,
E engole-a, num repente
E que nada reste dela!
--
Tu, Fogo, vai sobre ela,
Vai e deixa-te ficar!
Quanto menos reste dela,
Mais irão rejubilar!
--
Ar! Vem, do Sul, lá do deserto
E do Polo, o do Norte!
Com frio e calor, decerto
Terrível será su sorte!
--
Enquanto isso, oh Água,
Não a faças mais sofrer,
Se nela houver já mágoa
Do seu ido proceder!
--
Limpa tudo e a renova,
Que se erga, sem pecado!
Sej' üa cidade nova,
Até ao Mund' acabado!










terça-feira, 20 de maio de 2014

Paula

---   I

Oh, quanta tristeza eu hei,

Desde que não mais te vi ...

Sei que não mais te verei,

Nem vens cá, nem vou aí ...


---   II

A ti, não mais te vou ver,

Não sei mesmo ond' estás !...

Nem posso sequer saber,

Por onde tu andarás ...

---   III

Em ti penso eu, bastante,

Tempos e tempos sem fim ...

Um modo de a ti, distante,

Vêr-te bem ao pé de mim ...







PAULA - I

Há tempo tão já passado,

Fui-t' um dia conhecer ...

Oh, quanto tenho chorado,

Por não mais te poder ver!

Tive que me vir embora,
De S.João, pois, sair
Por isso, minh' Alma chora,
E nem mesmo quer sorrir!


Mas isso, que te importa?
Não te lembras mais de mim!
Pra ti,eu sou cousa morta,
Acredito bem que sim!


Também iss ' eu 'stou a crer:
Cadáver penso que 'stou,
Defunto com mau par'cer!
Assim, morto, eu já sou!

domingo, 18 de maio de 2014

Quando eu fui trabalhar

Er' uma 1 hora, talvez,
Quando eu fui almoçar.
E depois, lá pelas 3,
Saí, pra ir trabalhar trabalhar.


Não, não fui, peço perdão!
Contudo era pra ir!
Mas não fui, não fui, pois não,
Porque no chão fui cair!


Teria eu desmaiado?
Eu não sei, mas não o creio:
Mas fiquei ali prostrado
Na borda de um passeio!


Ia-me a levantar
Quando vi o impensável:
Um sapo a passear
Com um impermeável!


Atentei melhor, então:
Uma bengala levava,
segura na sua mão
Binóculo, também usava!.



Nunca eu coisa tal vira,
e nos meus olhos não cri,














domingo, 13 de abril de 2014

Há algures um armazém,Que vai daqui ao Além
E que lá dentro alguém
Lhe pôs só notas de 100,
E uma falsa, também,
Cujo valor nenhum tem .





sábado, 12 de abril de 2014

Eu lembr' os tempos passados,                                      
Em qu' à frente tinh' o Mar,
A Arei' o Sol amados,
E um bem saudável Ar !

Eu sei qu' estes tempos são idos,
Que nunca mais voltarão !
Que os passos por lá tidos,
Nunca mais regressarão !

Mas Lisboa ... ai, Lisboa !
Oh tão terrível cidade !
Mas por mais que a mim doa,
Ficarei, por mais que brade !

Eu peço, portanto, assim ,
Que me digam que fazer :
Viver mal, aqui, oh sim,
Detestand' ist' a morrer ?

Da Cidad' o  cheir' o som,
Enfim, a poluição,
Tem só para mim o dom,
De dela fugir, 'té mais não !

O Meu Caminho

Não consigo respirar:
Nem sinto sequer o ar.
Só o vacuo me rodeia
Vai comigo, assim me peia:
Dele, não posso fugir,
E de ao pé dele sair .

Para onde? Não sei !
E será qu' o poderei ?
Tud' é negr' à minha frente...
E à volta não há gente !

Um Negro Buraco ...




And' anémico nest' agora
em que eu 'stou a viver ! ...
A Saudade em mim mora,
E dela me faz morrer !

Log' assim qu' a conheci,
Por ela m' apaixonei,
E log' a partir d' aí
Amigo d' ela fiquei.

Mas pra tud' exist' um fim,
E por iss' este também
Também acabou pra mim,
E nunca mais fiquei bem !

Agora, pr' ós cantos chora,
Só seu fantasm' é comigo,
Agradável sej' embora,
Chorá-la eu só consigo !

Chora minh' Alma, desfeita!
Não ris, que não és capaz !
Seu retrato te deleita,
Mas só, não te satisfaz !

Vê-la mais não a verei eu,
E ouvi-la, nem pensar !
Contudo não é erro meu,
De só nela m' alegrar:

Bastant' é minha tristeza,
"Poderei comig' assim ?"
Oh Fado, tão de dureza,
Dá-m' a de volta, sim ?





sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

coelho e miguel

Foi um gigant' em poder
Que Portugal foi pisar:
Deixou-o sem se mexer,
E fê-lo mesmo calar !

Pela janela deitado,
Por menos o foi Miguel
Portugal foi levantado,
Livre do tempo cruel !

Mas quem pode comparar
Ao Coelh' este traidor ?
Seria o Miguel sujar
Pois não houve tant' horror !

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O Jornalista

Cheir' um morto,logo vai
Para onde o cheiro sentiu!
Quand' o vê, a pique cai
Sobr' o cadáver que viu !
Qu'é abutre pensareis
o qu' assim tem proceder
mas à cabeça não deis,
trabalho para fazer!
O que é, vou-vos dizer
Já, já, já,aqui à frente:
É jornalista,é de ver,
Um ser sempre descontente!
Vive da desgraça d'outrem
diz qu'o públic' é qu'o pede
que dele mandato tem!
É ser asquerous' e fede!